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O verdadeiro desafio da Industria no Brasil

28 out

O texto abaixo depois de editado fez parte de um livro editado pela Deloitte para discussão da Industria no Brasil hoje e amanhã.
O tema abaixo foi meu desafio neste tema . Espero que gostem !
Continuo um crítico do papel anacrônico da CNI e da Fiesp no cenário do país já mudado , e muito desde o plano real , mas cujo discurso permanece fisiológico a espera de benesses e sem nenhum comprometimento com iniciativas realmente dignas de defender o papel dos que investem e investiram no risco real da produção industrial desde a nossa revolução industrial ,pós era do café e a partir de uma imigração importante que suportou o inicío da industria nacional a partid e São Paulo e hoje continental tanto quanto o Brasil.

TÍTULO
A construção de um novo futuro
SUBTÍTULO
A construção de um futuro inovador e sustentável na indústria brasileira dependerá da incorporação crescente das melhores práticas por parte das organizações, influenciando o seu modelo de pensamento operacional e estratégico.
Por Marcos da Cunha Ribeiro
Diretor Geral – Santal Equipamentos Ltda
Diretor Administrativo Holding do Grupo Jacto até maio de 2012
Presidente da RRDonnelley Moore até agosto de 2007.

O que tem a indústria a ver com um futuro inovador e sustentável? Não seria este um tema para academias, institutos de pesquisa, órgãos de governo e alguns gurus? Vamos, a seguir, discorrer pensamentos e conceitos sobre a indústria de manufatura no Brasil considerando o contexto atual, que se apresenta com complexidade crescente, em função de uma série de consequências de movimentos do passado recente.
A inovação, entendida enquanto a ação de fazer algo novo, ou renovado, ou mesmo de forma diferente do que sempre foi feito, é a nova moda e o ponto focal das discussões sobre gestão e sucesso dos negócios. Mas esse tema não é tão novo assim. Há vários anos, a inovação tem recebido diversos sinônimos, em especial, a partir da década de 80, quando o cenário de globalização e crescimento ainda vigoroso das nações ocidentais do Hemisfério Norte eram motivo de segurança de um lado e, de outro, de exigências por resultados crescentes a cada trimestre.
E, por conta daquela situação, agravada com as mudanças fortes do mercado financeiro naqueles anos, novas iniciativas e modelagens passaram a ser exigidas, com foco em redução de custos, reinvenção e reengenharia dos negócios e das empresas e tantas nomenclaturas para um esforço de melhoramento contínuo ou até radical, que sustentasse um resultado crescente, estável, previsível e garantido de earns per share, mantendo a atratividade das ações no mercado de capitais.
Na década de 90, o tema ganhou ainda maior complexidade. A partir daí, o desafio era ser inovador e, ao mesmo tempo, sustentável. O conceito de “sustentável” aqui remete de imediato ao mais adotado atualmente, que seria o do triple bottom line, cunhado desde o final da década de 90 por John Eikington, com seu livro agora traduzido para o português, “Sustentabilidade – Canibais com Garfo e Faca” (M. Books Editora). Ocorre que, de fato, a sustentabilidade apoiada por três suportes – pessoas (social), meio ambiente (planeta) e recursos financeiros (economia-resultado) – permite uma melhor compreensão do papel da indústria desde há muitas décadas.
Uma visão crítica
Vivemos um momento crucial para a indústria no Brasil. Nuvens cinzas são dadas como certas em um contexto de real valorizado, comércio se expandindo e economia em geral crescendo, enquanto o setor industrial caminha a taxas abaixo de 2,5% por anos seguidos e com tendência de baixa.
É preciso, porém, ampliar o nosso ponto de vista. Os diagnósticos, as avaliações de desempenho, os resultados e os estágios de evolução da indústria são feitos hoje, na sua maioria, com base em uma amostra das 500 maiores, das 1.000 maiores ou das pouco mais de 600 organizações com capital aberto na Bovespa. Mas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde as micro até as mega-indústrias, temos no Brasil seguramente mais de 300 mil empresas.
Portanto, a partir de que realidade presente queremos construir a realidade futura da indústria brasileira, como agente de inovação e sustentabilidade? Certamente as melhores práticas virão das grandes indústrias bem sucedidas, mas a nova realidade só se consolidará no futuro se a maioria das grandes, médias-grandes, médias e pequenas empresas também forem agentes conscientes desse processo de fomento da inovação. Elas precisam atuar como mola mestra de sucesso e de crescimento auto-sustentado, com base em ações adequadas de manutenção dos resultados, com a devida contrapartida para a sociedade e com o uso responsável de recursos do meio ambiente nas relações sociais, comerciais e econômicas, locais e globais.
Pontos críticos
Aqui, um primeiro ponto crítico. Demming e Juran, desde a década de 50, já asseveraram que só posso melhorar aquilo que eu consigo e sei medir. Pois bem, temos a famosa medida de utilização das capacidades da indústria brasileira, que, nos últimos mais de 30 anos, não foi renovada, revista ou atualizada e que, entre períodos de profunda recessão e alta expansão de consumo, varia seus índices sempre entre 78% e 85% de ocupação. Pois bem, isso implicaria dizer que o Brasil está sempre prestes a sofrer de inflação de demanda, que o governo está sempre devendo subsídios ou linhas de financiamento para aumento de capacidade e que a indústria de bens de capital e a importação alternativa dos meios de produção deveriam, todos os anos, estar com um movimento mínimo médio superior ao do crescimento da própria produção industrial. Isso não me parece verdade, mas, sem dúvida, um ponto convencionado, a ser questionado pela indústria, que pretende ser agente de mudança para o futuro de inovação e sustentabilidade.
Um segundo ponto crítico é que os critérios de produtividade ainda são incipientes para a maioria das nossas organizações industriais. O conceito de “excelência operacional” tem crescido ao nível de consciência empresarial, porém, o que vemos ainda com muita frequência é uma série de soluções de curto prazo e de extrema influência emocional. Basta o dólar estar desvalorizado e os financiamentos ficarem mais fáceis pela maior liquidez momentânea do mundo, e vemos a balança comercial desequilibrar no quesito de importação de novas capacidades. Em geral, sem uma análise de mercado adequada e sem um plano de vendas e marketing que justifique o investimento em ativos, o rebote vem rápido, com falta de geração líquida de caixa e, portanto, sofrimento para auto-sustentar o crescimento consequente do capital de giro.
A visão sistêmica dos processos fica hoje enevoada por siglas e rótulos, sem a necessária consistência: TQM, Círculos de Q, A meta, 6 Sigma , Lean, Kaizen, Just in Time , Total Cycle Time etc. Cada uma dessas metodologias traz um conjunto extremamente válido de excelentes conceitos, mas cuja maioria funciona como complementares e suplementares uns aos outros. Qual a falha? Problemas em implementação e falta de perseverança e consistência. Neste caso, entenda-se “consistência” como uma coerência permanente, em longo prazo – coerência de ações, decisões, investimentos, atitudes, liderança e objetivos. E por que falta coerência? Basicamente pela existência de um sistema de leis trabalhistas com mais de 60 anos, sem grandes inovações e com pouca flexibilidade para os tempos atuais e frente aos concorrentes internacionais.
P&D incipiente
Os investimentos em P&D no Brasil ainda são incipientes. Mais ainda se avaliarmos somente aqueles efetivamente alocados na atividade industrial. Inovação tem um forte componente de P&D quando aplicada especialmente a produtos e soluções, mas os índices de investimento no Brasil ainda estão muito aquém dos nossos concorrentes mundiais. Mesmo depois do advento da Lei do Bem, temos um paradoxo a enfrentar no tocante aos esforços de P&D.
Uma das características da gestão industrial no Brasil foi historicamente tentar replicar modelos importados sem a devida consideração das diversidades de cenários e contextos. Raramente ocorreram discussões focadas na gestão empresarial do ponto de vista econômico-financeiro. Em parte, porque sempre se está à espera de que o governo venha em socorro, com barreiras à concorrência externa, ou com financiamentos subsidiados para investimentos em capacidades, ou mesmo para sustentar capital de giro, e assim por diante.
Aparentemente, por muito tempo, houve a ilusão da réplica dos modelos das nações mais desenvolvidas. No início, o planejamento e a estratégia eram ruins ou negligenciados e melhoraram no tempo substancialmente. Ocorre que, hoje em dia, infelizmente, as implementações das estratégias continuam pobres e sofríveis.
Visão econômico-financeira
No nosso país, o custo de capital ainda é dos mais altos do mundo, a despeito de que o crédito melhorou e sua disponibilidade cresceu. Qual a queixa dos bancos de fomento e investidores de mercado nos últimos dez anos? Que não temos bons projetos suficientes para a disponibilidade de capital de investimento e crédito para investimentos na produção.
No entanto, se o custo de capital é ainda dos mais caros, o capital de giro e o giro financeiro das operações de produção e distribuição são críticos e importantes. Aqui começa a sustentabilidade da indústria no plano econômico e social. Não se pode pretender crescer e enfrentar flutuações normais de demanda com alavancagem de capital de giro baseada em crédito bancário e/ou desconto de duplicatas. Não há sustentação no ciclo total do negócio e o impacto é direto no entorno da empresa, com as contratações ou demissões cíclicas. O crescimento auto-sustentado, com autofinanciamento de capital de giro, é a chave da longevidade do empreendimento. E a velocidade do giro desse capital na cadeia de valor e de suprimento da indústria é a forma mais eficaz de manter a rentabilidade saudável e que permita o reinvestimento no crescimento.
Se o Produto Interno Bruto (PIB) industrial já representou mais de 38% do PIB total brasileiro e hoje representa menos de 32%, com viés de baixa, não podemos, apenas por isso, chegar à conclusão de que está havendo uma desindustrialização no País. Devemos considerar que, depois dos anos 70, o crescimento do PIB no setor de serviços seguiu a tendência moderna e mundial de crescer a taxas maiores. Deve-se notar também que o Brasil, com sua vertente de agronegócio crescente e importante para a balança comercial do País, mantém uma participação substancial desse setor no PIB total. Portanto, não é por este caminho que devemos verificar a desindustrialização.
As operações de fusão e aquisição na indústria de transformação já foram mais fortes em passado recente, mas, na maior parte dos investimentos, houve manutenção do parque industrial e do nível de produção, acompanhando o setor de consumo, maior puxador do crescimento nos últimos dez anos. O câmbio tem sido colocado como bode expiatório do processo de desindustrialização, mas convenhamos, não é papel da indústria reclamar por intervenção nessa área, mas planejar e executar projetos de competitividade eficazes em um cenário e contexto já conhecido desde 2004 e com fortes tendências de manutenção em níveis que nunca serão suficientes para compensar nossas ineficiências competitivas e o Custo Brasil reticente e anacrônico.
O maior risco que temos hoje no setor industrial, além dos custos trabalhistas já instalados e do recrudescimento da fiscalização sobre leis e normas arcaicas, é o custo crescente de investimentos em qualificação, capacitação e aperfeiçoamento da mão de obra direta, indireta e técnica. Isto porque o apagão de mão de obra pelo atual pleno emprego está acompanhado de um processo também anacrônico de qualidade decrescente no sistema de ensino, além de certo estímulo à manutenção de trabalho informal intermitente, amparado por programas assistencialistas. Sem dúvida, o sistema “S”, também mantido pelas indústrias, é ainda uma exceção positiva no cenário da educação, mas insuficiente.
Exemplos de sucesso
Certamente não é possível esgotar as alternativas de caminhos para o sucesso da indústria brasileira. Encontraremos hoje, com alguma facilidade, casos exemplares. As multinacionais brasileiras em crescimento global são bons exemplos de que tudo isso é possível. Mas não vamos nos iludir que seja fácil. Nada disso acontece em menos de 3 a 4 anos de muita perseverança e consistência e com algum sofrimento a partir da decisão de ser inovador e sustentável.
Por outro lado, devemos ter em mente que o processo de construção do futuro não é privilégio do tamanho ou da idade da indústria, mas daquelas empresas que seguiram o roteiro mínimo de esforço e investimento de forma consistente e permanente. A indústria brasileira não deve se preocupar se representará 30% ou 40 % do PIB nos próximos 10 ou 20 anos, mas se ela permanecerá gerando valor para os clientes e riqueza para o País, crescendo domesticamente na proporção da demanda e internacionalmente por ser competitiva por seus valores próprios.
O papel social extramuros da indústria no futuro inovador e sustentável só irá ser perceptível depois que as boas práticas estiverem firmemente incorporadas nas organizações, influenciando o seu modelo de pensamento operacional e estratégico. Para envolver a sociedade brasileira e fazê-la também inovadora e sustentável, deveremos chegar a um ponto em que a indústria, em sua maioria de representantes, expanda a sua evolução deliberada e compartilhe o conhecimento, acrescido de ação voluntária, apolítica e com investimento real, como algumas poucas fundações tem demonstrado ser possível fazer, na defesa da ética, da sustentabilidade social e ambiental e na educação.

Saiba mais
Bibliografia e referências sugeridas para leitura sobre o tema:
• “Sustentabilidade – Canibais com Garfo e Faca”, John Eikington (M. Books Editora)
• “Freakonomics”, Steven Levitt (Editora Campus)
• “Manual da Empresa Rica”, Luiz Bersou (Trevisan Editora Universitária)
• “Sustentabilidade – A Legitimação de um Novo Valor”, José Eli da Veiga (Editora Senac São Paulo
• “Sistemas de Gestão Empresarial”, Nélio Arantes (Editora Atlas)
• “Foco do Cliente”, José Carlos Teixeira Moreira (Editora Gente)
• “Total Cycle time”, Thomas Group Inc. USA
• Instituto Ethos (www.ethos.org.br)
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